quarta-feira, 15 de março de 2017



TIC-TAC
Aos oito anos de idade meus pais me colocaram no ballet, minha mãe dizia: você precisa melhorar sua postura, vai ficar corcunda. Aos 9 anos eles decidiram me colocar na aula de piano, segundo meu pai todos os filhos dos amigos dele tocavam um instrumento, então eu deveria tocar também, mesmo eu dizendo que preferia  bateria.
No meu aniversário de dez anos tudo que eu queria era um livro ensinando a desenhar(eu amava pintar e desenhar), mas minha mãe dizia que sujava a roupa e que era perda de tempo, então meu pai me deu uma bicicleta, ele dizia que todas as crianças da minha idade já sabiam andar de bicicleta, menos eu, então todos os domingos ele me fazia andar no parque, fiquei tentando por um mês inteiro, até que ele desistiu de mim, me chamando de “um caso perdido”. Já no meu aniversário de quinze anos eu queria quadros, pincéis e tinta, para pintar e treinar, mas minha mãe disse que toda moça deveria ter uma festa de quinze anos, então eu tive que concordar e lá fui eu sorrir para pessoas que eu mal conhecia durante uma noite inteira. Eu não tinha muitos amigos, eu tinha que ser amiga apenas dos filhos dos amigos dos meus pais, minha mãe escolhia minhas amizades, pois segundo ela eu tinha que andar com gente interessante, gente com classe, passei o tempo todo cultivando amizades que eu não queria ao meu lado, e amando pessoas que eu odiava. Aos dezoito me formei na escola e decidi que queria cursar artes na universidade, mas meu pai era advogado e queria a todo custo que eu fizesse direito, meus pais diziam que eu morreria de fome se fizesse artes, então depois de muito ouvir decidi que faria direito, então lá fui eu, realizar o sonho do meu pai de ter uma filha advogada. Aos vinte conheci o amor da minha vida, um rapaz lindo que conheci na universidade, ele  cursava história, me apaixonei perdidamente, mas tive que terminar nosso relacionamento que mal tinha começado, por que? Porque ele não atendia todas as exigências dos meus pais. No meu aniversário de vinte e quatro anos, adivinha? Fizeram uma festa, apenas para os mais íntimos, no caso íntimo deles, nesta festa meu pai me apresentou o filho do dono da firma onde ele trabalhava, o homem que eu deveria me relacionar, o rapaz “certo”. Aos vinte seis fiquei noiva, fui a última a saber, ele pediu minha mão aos meus pais e só depois perguntou se eu estava de acordo...e quando eu percebi já tinham marcado a data do casamento, sem ao menos perguntarem se eu tinha compromisso no dia.
Aos vinte sete me casei, realizei o sonho dos meus pais, entrei de véu e grinalda, o vestido me sufocava, eu disse sim querendo dizer não, sorri para câmera, abracei e agradeci a presença de pessoas que nem foram convidadas por mim. A festa de casamento estava perfeita, perfeita para minha mãe, ela tinha organizado tudo, tudo do jeitinho que ela queria, o bolo era de nozes...poxa vida eu era alérgica a nozes. Aos trinta meu marido resolveu que teria filhos, assim sem mais nem menos, não me perguntou se era o que eu queria no momento, mas segundo ele eu já estava velha, tinha que arrumar um menino logo, as pessoas já estavam achando estranho que ainda não tínhamos tido filhos, então ele decidiu que eu teria que largar meu emprego, porque lugar de mulher era em casa, apesar de eu odiar minha profissão eu gostaria de poder me dedicar mais a minha carreira, mas não pude pois aos trinta e um  ganhei meu primeiro filho, ele era lindo, parecia um anjo, quando o vi pela primeira vez, tive a certeza que ele tinha sido a melhor escolha da minha vida, eu estava feliz e satisfeita, mas assim que sai da sala de parto meu marido já falava no segundo, opa espera aí, eu só quero um filho. Ele queria três, sim,ele já havia decidido que teríamos três filhos, e para completar meu pai disse que apenas uma criança não era suficiente, que ele queria a casa dele cheia de netinhos. Aos 33 tive meu segundo filho, ou melhor filha, e que menina linda, tinha os meus olhos, olhos curiosos…
Aos trinta e cinco fiquei grávida de novo, meu marido não tinha desistido de ter três crianças, mas algo de errado aconteceu e eu acabei perdendo a criança, entrei numa depressão profunda, só aos trinta e sete  me recuperei. Aos quarenta cheguei no meu limite então adoeci, lutei três anos contra uma doença terrível , fui curada. Então encarei mais quinze anos de entrega.
Quando completei cinquenta e cinco anos decidi que iria me divorciar, eu já não aguentava. Fui julgada, me chamaram de doida,mas eu fui até o fim, se meu pai estivesse vivo naquele momento com certeza ele diria: você desonrou a família, que vergonha, como vou explicar isso para os meus amigos?
E pela primeira vez na vida eu me senti liberta, livre e feliz. Então minha vida começou aos cinquenta e cinco anos de idade,fiz o que eu nunca tinha feito antes. Aos cinquenta e oito pulei de paraquedas. Aos cinquenta e nove viajei o mundo. Aos sessenta fiz minha primeira tatuagem, meus filhos quase morreram de horror, a tatuagem era um relógio de bolso, no antebraço, simbolizava o tempo, e tinha um significado importante para mim, significava que o tempo estava correndo e que me restava pouco para recuperar  tudo o que perdi tentando ser alguém que eu não era, para agradar os outros. Aos sessenta e cinco reencontrei aquele velho amor, ele com setenta anos e viúvo.
Muitas pessoas me chamaram de “velha louca”, isso porque não sabiam nem a metade do que eu ainda pretendia fazer: viver, sem me preocupar com o que os outros iriam pensar.

PS: Viva! Da melhor forma possível.

5 comentários:

  1. Incrível Jade, maravilhoso o conto! Boa sorte nessa caminhada e que tudo dê certo!! :D

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  2. Muito bom, é a vida como ela deve ser vivida sem se preocupar com o que as pessoas pensam de vc e viver é aceitar co vc é.
    Parabéns 👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻

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